segunda-feira, março 07, 2011

REFLEXÃO

PEDAGOGIA DA INDIGNAÇÃO.

    “Eu tinha 21 anos e morava em Jaboatão. Um casal amigo de minha família nos visitava com o filho de 6 ou 7 anos. O menino subia nas cadeiras, atirava almofadas para a direita, para a esquerda como se estivesse em guerra contra inimigos invisíveis. O silêncio dos pais revelava sua aceitação a tudo o que o filho fazia.     
    Um pouco de paz na sala. O menino sumiu pelo quintal para, em seguida, voltar com um pinto, por pouco asfixiado, na mão quase crispada. Entrou na sala ostentando, vitorioso, o objeto de sua astúcia. Tímida, a mãe aventurou uma pálida defesa do pintinho, enquanto o pai se perdia num mutismo significativo.”Se falar de novo, disse o menino decidido, dono da situação, eu mato o pinto”.
    O silêncio que nos envolveu a todos salvou o pintinho. Solto, combalido e trôpego, saiu da sala como pôde. Atravessou o terraço e se foi esconder por entre a folhagem das avencas, mimos de minha mãe.
    A mim já me dá pena e preocupação quando convivo com famílias que experimentam a tirania da liberdade.
    Mas a mim me dá pena também e preocupação, igualmente, quando convivo com famílias que vivem a outra tirania, a da autoridade, em que as crianças caladas, cabisbaixas, bem comportadas, submissas, nada podem fazer.
    Contraditórios entre si estes modos, o autoritário ou o licencioso, trabalham contra a urgente formação e contra o não menos urgente desenvolvimento da mentalidade democrática entre nós.”
 
Paulo Freire, in Pedagogia da Indignação.

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