quarta-feira, julho 02, 2014

Leitura Complementar - Pós em Psicopedagogia Clínica e Institucional


Pessoal segue mais um material complementar para fortalecer e embasar nossos estudos.


Quero crescer? quero ler e escrever? reflexões psicopedagógicas
1. Muriel Haupenthal
2. Andrea Theise
março/2007

RESUMO:
O presente artigo possui como foco um estudo de caso caracterizado por dificuldades de aprendizagem referentes à linguagem, mais especificamente a leitura e a escrita. Sendo o estudo de caso, uma prática atribuída a Psicopedagogia Clínica, apresentaremos uma breve descrição sobre a mesma. Pontuaremos também, questões pertinentes: a história vital do sujeito pesquisado, a realização da avaliação da lecto-escrita e a aplicação de provas projetivas. De posse dessas informações, estabelecemos um diagnóstico baseado na pesquisa e investigação, fazendo uso das hipóteses que nos conduziram à identificação da(s) causa(s) da(s) dificuldade(s) de aprendizagem apresentadas pelo sujeito pesquisado. A partir disso, construímos uma proposta de intervenção  psicopedagógica que resultou, na apresentação, de uma devolução para a família sobre o caso aqui apresentado. Pois, a história do sujeito estará sempre relacionada com a sua família, mais especificamente, com as representações e significações presentes nas suas interações familiares. 

Palavras-Chave: Psicopedagogia; desenvolvimento; linguagem.
O psicopedagogo deve contemplar o sujeito em sua totalidade, para compreender o processo de aprendizagem, pois a aprendizagem se dá através da construção do conhecimento e também da construção de si mesmo, como sujeito criativo e pensante, autor e autônomo. Então, para que o sujeito aprenda, é imprescindível a interseção de quatro níveis: o organismo (biológico, herdado, inato), a inteligência (objetividade, generalidades, nos torna parecidos), o corpo (construído, subjetivado) e o desejo (subjetivo, nos torna únicos, singulares).
Bossa (2000, p. 21, 22) nos fala que:
O trabalho clínico se dá na relação entre um sujeito com a sua história pessoal e sua modalidade de aprendizagem, buscando compreender a mensagem de outro sujeito, implícita no não-aprender. Nesse processo, onde investigador e objeto-sujeito de estudo interagem constantemente, a própria alteração torna-se alvo de estudo da Psicopedagogia. Isto significa que, nesta modalidade de trabalho, deve o profissional compreender o que o sujeito aprende, como aprende e por que, além de perceber a dimensão da relação psicopedagogo e sujeito de forma a favorecer a aprendizagem.
É indispensável que o psicopedagogo possa avaliar e auxiliar o sujeito em todas essas dimensões, essencialmente a do desejo, para que ele se torne capaz de aprender e realizar-se com isso, se tornando uma pessoa feliz. Para isso, Bossa (2000, p. 23) afirma que:
 No exercício clínico, o psicopedagogo deve reconhecer a sua própria subjetividade na relação, pois trata-se de um sujeito estudando outros sujeitos, em que um procura conhecer no outro aquilo que o impede de aprender, implica uma temática muito complexa. Ao psicopedagogo cabe saber como se constitui o sujeito, como este se transforma em suas diversas etapas de vida, quais os recursos de conhecimento de que ele dispõe e a forma pela qual produz conhecimento e aprende.
Uma ferramenta indispensável para a prática da Psicopedagogia Clínica, é o estudo de caso, pois o mesmo possibilita a obtenção de dados sobre o paciente que está em processo terapêutico. Durante a realização de um estudo de caso, o psicopedagogo busca diversas informações referentes ao sujeito que se encontra em tratamento, pois estes dados revelam a construção subjetiva do sujeito e a forma como ele se relaciona com o conhecimento, com o aprender. Desta forma, para Escott (2004, p.190) “o estudo de caso é um tipo de pesquisa qualitativa que tem como objeto de estudos uma unidade que se analisa em profundidade”.
Sendo assim, o estudo de um caso, é a investigação que busca construir hipóteses sobre um sujeito em especial, buscando sempre valorizar a sua história, considerando seus avanços, incentivando-o na superação das suas dificuldades e principalmente, tentando resgatar nele o prazer de aprender.
Este estudo de caso objetiva a compreensão das causas que geram dificuldades de aprendizagem, especificamente relacionadas à lecto-escrita.
A criança pesquisada, que será chamada de R., tem 9 anos, é aluna da 4ª série do Ensino Fundamental de uma escola pública, R. mora com a mãe, o pai e o irmão. Durante a entrevista sobre a história vital, que para Weiss (2000, p.61) é:
Um dos pontos cruciais de um bom diagnóstico. É ela que possibilita a integração das dimensões de passado, presente e futuro do paciente. (...) A visão familiar da história de vida do paciente traz em seu bojo seus preconceitos, normas, expectativas, a circulação dos afetos e do conhecimento.

A mãe de R. revelou ter descoberto que estava grávida dele, somente quando já estava sofrendo um princípio de aborto. Portanto, R. não foi um filho desejado, a mãe afirma que a gravidez “aconteceu” e que quando ela descobriu omitiu este fato do pai da criança, pois estavam separados, contudo, o pai acabou sabendo da notícia por terceiros.
Ao saber da gravidez, a mãe afirma que o pai de R. aceitou tranqüilamente e apoiou-a. O restante do período gestacional ela relata ter sido tranqüilo. O parto foi normal e sem nenhuma complicação segundo a mãe. Quando R. nasceu, ela, o pai de R, e seu primeiro filho, foram morar juntos, e em seguida R. começou a apresentar problemas de saúde. Aos 9 meses R. foi operado para a remoção de uma hérnia, no entanto durante o período de espera para a realização da cirurgia R. tinha uma saúde muito debilitada, e necessitava de cuidados especiais. A cirurgia correu bem, só que a mãe revela ter se traumatizado com este problema de saúde do filho, ela afirma ter se tornado “neurótica” e diz que passou a superproteger o filho desde aquela época.
R. tem um irmão de 13 anos, fruto de uma relação anterior da sua mãe. Contudo, só aos 9 anos R. ficou sabendo que o seu irmão mais velho não era filho do seu pai. Essa revelação aconteceu porque R. perguntou por que o irmão não chamava seu pai de pai, então sua mãe lhe disse que era porque ele não é pai do irmão. Em trechos da entrevista,  a mãe de R. fala que ele tem medo do escuro, medo de temporal, medo de ficar doente, etc. ela ainda comenta que foi ela que “colocou” esses medos nele. A relação de R. com esse irmão é repleta de brigas, pois a mãe diz que eles possuem comportamentos opostos, R. é muito ativo, falante, adora brincar, já o irmão é calmo, tímido, quieto.
R. mamou até os 3 anos de idade, chupou bico só durante os primeiros meses, tomou mamadeira até os 7 anos, falou e caminhou com 1 ano de idade, a mãe afirma que ele só não caminhou antes, por causa do seu problema de saúde. Sobre o controle esfincteriano a mãe relata que R. tinha “nojo” das fraldas sujas e por isso parou cedo, por volta dos 2 anos. Aos 9 anos R. ainda dorme com mãe, mora a duas quadras da escola e seus pais o levam e buscam, e quando ele vai com a mãe, eles vão  de mãos dadas até a porta da sala de aula.
A característica que a mãe mais ressalta no seu filho é a facilidade de fazer amizades e se comunicar, no entanto, ela comenta que ele não tolera ser “feito de bobo”. Para a mãe, a importância da educação e da escola na vida do seu filho é possibilitar que ele tenha um emprego melhor do que ela e seu marido. Para viver “melhor”.
R. é um menino de estatura baixa, franzino, e isso incomoda muito o seu pai que acha que o filho “tem problema” porque “não cresce”, a mãe diz que já levou no médico e que isso é normal. R. brinca na escola, preferencialmente com crianças menores e na 4ª série, sente-se deslocado, chegando a pedir até para mudar de escola. A mãe diz que R. troca muitas letras quando escreve e é desatento, inclusive revela que R. também trocava letras na fala até aproximadamente 7 / 8 anos.
Um dos principais momentos da entrevista foi quando a mãe de R. falou que “tem medo que ele cresça” e afirmou ter consciência de que estabeleceu uma “relação de dependência com ele”. Outro ponto importante do relato da mãe é quando ela desabafa “se eu tivesse dinheiro, ia fazer um tratamento, porque depois que ele ficou doente eu mudei, eu não era assim”.
No momento de encontro com R., objetivando avaliar o seu desenvolvimento na leitura e na escrita, apresentamos para ele cinco livros de historinhas diferentes, para que ele escolhesse o que mais despertava o seu interesse. R. optou pelo livro intitulado “A festa encrencada”, de Sônia Junqueira. Pedimos para que ele contasse a história para nós, e ele prontamente iniciou a leitura do livro. Pois, segundo Weiss (2000, p. 96, 97):
Não é desejável ler pedaços de um texto e sim o texto completo. Não se pode esfacelar um texto, perdendo, assim, o seu significado, fazendo-se apenas uma avaliação mecânica. É preciso resgatar, desde o diagnóstico, o hábito de ler, criando-se a idéia de atividade prazerosa.
R. demonstra ler com muita facilidade as palavras que fazem parte do seu cotidiano, do seu vocabulário. Contudo, apresenta certa dificuldade para identificar palavras que ele desconhece, parando muitas vezes de ler e pedindo nossa aprovação, nos olhando e perguntando: “está certo?”.
Aconteceram alguns fatos que merecem destaque, durante a leitura da historinha. Um deles refere-se ao fato de R. estar lendo uma página e já ir folheando a próxima página, demonstrando curiosidade e uma ansiedade muito grande em concluir a leitura. Outro detalhe diz respeito à leitura da palavra “gruta”, R. não conseguiu ler essa palavra, e fez algumas hipóteses. Porém, mais adiante a palavra aparece novamente na história, e R. lê com muita facilidade a mesma palavra, que ele antes parecia não reconhecer. Também é importante pontuar a dificuldade que R. possui de pronunciar a letra “r” , quando essa se encontra no meio das palavras, por exemplo, a palavra “dragão” ele lia “dagão”. A última consideração, que nos despertou a atenção, foi o fato de em dado momento da história, R. trocar a palavra “enorme”, por um sinônimo, “imenso”, com muita rapidez e destreza.
Após a R. acabar a leitura do livro, foi feita uma releitura da história para ele e, posteriormente, foi solicitado que ele escrevesse o que ele havia compreendido sobre aquela história. Conforme Weiss (2000, p.97) “ao final da leitura verifica-se se ele aprendeu o sentido global do texto, se é capaz de sintetizá-lo”. Ele escreveu um resumo, onde privilegiou o início e o final da história. Na escrita, verifica-se a troca ortográfica da letra “m”, pela letra “n” e vice-versa, trocas de tempos verbais e outros erros ortográficos, principalmente dúvidas quanto ao uso das letras “s”, “c” ou “ss”. No entanto, o texto apresenta estruturação lógica e organização de idéias condizentes com o esperado para um aluno de 4ª série.
            Após ler e escrever a história, foi solicitado a R. que ele fizesse um desenho da sua família. Ele demonstrou bastante satisfação ao desenhar. R. organizou o desenho da seguinte forma: ele, com menor estatura, ao lado do irmão, um pouco mais alto, a mãe, mais alta que ele e que o irmão, e o pai, o integrante mais alto da família. R. desenhou sua família dentro de uma casa, que ele referiu ser a casa que ele morava antes. No desenho da casa, R. fez divisões e desenhou um quarto para os seus pais, e um quarto para ele e para o seu irmão.
            As figuras humanas desenhas por R. revelam que o mesmo, possui uma boa construção de noção de corpo. Na sua projeção, também ficam bem claras as diferenças de gênero, sendo que a mãe está usando um vestido e tem cabelos compridos e R., seu irmão e seu pai, vestem camisas e calças e têm cabelos curtos. Todas as pessoas desenhadas encontram-se de braços abertos e muito próximas umas das outras, as feições dos rostos são muito parecidas.
            R. fez uso da borracha ao desenhar seu rosto, o rosto da mãe e o rosto do pai, os braços da mãe e do pai também foram refeitos, assim como seus pés, os pés do irmão e da mãe. Observa-se que, R. desenhou um rosto que foi apagado. Não ficando claro, a quem este rosto pertenceria. Além disso, ele desenhou seu irmão tão próximo de sua mãe, que os desenhos praticamente se sobrepõem.
            Após a realização da entrevista com a mãe (história vital), do momento de avaliação da leitura e da escrita e da aplicação da prova projetiva desenho da família, estas informações serviram para  delimitarmos nossas hipóteses e construirmos o diagnóstico. Sempre partindo da idéia de que:

O sujeito precisa ser sempre compreendido em sua totalidade. Os testes não podem ser usados dentro dos limites propostos nos seus objetivos, mas, sim, analisados como dados que permitem diferentes perspectivas na compreensão integrada do nosso paciente. (WEISS, 2000, p.122).
O processo diagnóstico norteia o fazer psicopedagógico, pois é a base de todo trabalho. Para Weiss (2000, p.32) “o objetivo básico do diagnóstico psicopedagógico é identificar os desvios e os obstáculos básicos no Modelo de Aprendizagem do sujeito que o impedem de crescer na aprendizagem”. Sendo a aprendizagem um processo, que só acontece através da interação do sujeito com o objeto e com o Outro. Para Ferreiro & Teberoski (1985, p.26):
O sujeito que conhecemos através da teoria de Piaget é um sujeito que procura ativamente compreender o mundo que o rodeia, e trata de resolver as interrogações que este mundo provoca. Não é um sujeito que espera que alguém que possui um conhecimento o transmita a ele, por um ato de benevolência. É um sujeito que aprende basicamente através de suas próprias ações sobre os objetos do mundo, e que constrói suas próprias categorias de pensamento ao mesmo tempo que organiza seu mundo.
            Cabe ao psicopedagogo ater-se profundamente a fala dos pais, para perceber o dito e o não-dito, tentando traçar uma perspectiva que revele a história daquele sujeito, que está apresentando o sintoma. Pois, é o olhar psicopedagógico para a subjetividade, que possibilita a percepção do significado do aprender para cada pessoa (significado esse atribuído fundamentalmente pela família), pois considera as questões intelectuais, cognitivas, os aspectos simbólicos e a vontade abarcada na construção da aprendizagem.
Durante a pesquisa para a elaboração de um diagnóstico, que permita compreender, as dificuldades de aprendizagem mencionadas pela família e pela escola a respeito do desenvolvimento da lecto-escrita do sujeito R., percebe-se que a dificuldade de aprendizagem de R. está muito mais relacionada ao seu desejo de não mostrar o que sabe, para não perder o papel de bebê que a mãe designou a ele. Há um contrato de sobrevivência entre R. e sua mãe, o fato dele não querer crescer, traz de certa forma vantagens para ambos. Para Paín (1985, p.37):
O crescimento da criança, sua passagem à adultez, transforma continuamente sua posição em relação ao pai e à mãe, produzindo desequilíbrios (...). As perturbações que o grupo não suporta, em função do seu particular contrato de sobrevivência.
A aprendizagem e o conhecimento estão diretamente vinculados às questões do crescimento. Aprender implica crescer, um crescer que se estabelece a partir do desejo do Outro, que atribui significados para as relações de ensino-aprendizagem, que possibilita as interações entre o sujeito e o objeto.
O não-aprender de R. na estrutura familiar que ele se encontra, significa manter o lugar que ele ocupa de bebê da casa, que, caso venha a aprender e a crescer estará impondo uma reestruturação na organização familiar vigente. Conforme, Andrade (2002, p.17) “apenas o desejo coloca em funcionamento o aparelho mental. Desejo de conhecer instala-se, então, a partir da mãe. Esse movimento de desacomodar implica muitas vezes mexer em questões difíceis de suportar”. Fernández (1991, p.100) diz que atribuir a uma pessoa um lugar dentro de um grupo familiar, a induz a desempenhar este papel.
R. representa um importante papel dentro da sua família, pois, foi ele quem uniu seus pais. Já que, durante a entrevista a mãe disse que ela e o pai de R. estavam separados, mas assim que souberam que havia “acontecido” a gravidez resolveram morar juntos. Nota-se, por diversas vezes na fala da mãe, que foi o nascimento de R. que motivou e mantém a sua união. Portanto, o fato dele não poder crescer, pode representar uma situação positiva: seus pais permanecem juntos.
Em dado momento do processo diagnóstico, a mãe verbaliza seu sentimento de angústia em relação ao crescimento do filho dizendo que “tem medo que ele cresça”. Conforme Ribeiro (2005, p.60) “para que uma criança aprenda, é necessário que ela o deseje. Entretanto,  para que esse desejo se articule é imprescindível que alguém demande isso dela”. Desta forma, R. está sintomatizando a falta de desejo e de demanda endereçados a ele. Segundo Volnovich apud Ribeiro in Wolffenbüttel (2005, p. 62):
O sintoma está no lugar de um fantasma, ou seja, o sintoma é a metáfora do sentido do fantasma. Evidentemente esse fantasma é o fantasma da criança. Mas, por sua vez, o sintoma é, (...), determinado pela estrutura desejante (‘o sintoma é a palavra da mãe’, diz Mannoni).
O desejo da mãe, de que R. continue sendo seu bebê, é explicitado em diversos momentos da entrevista realizada para aquisição de dados acerca da história vital, ela relata determinados fatos, fundamentais para o entendimento do contrato de sobrevivência existente entre os dois. Dentre eles: R. ainda dorme na cama com os pais; a mãe incentivou R. a parar de tomar mamadeira, mas depois tentou fazer com que ele tomasse novamente; ela leva e busca R. na escola que é bem próxima da sua casa; R. tem muitos medos (escuro, doença, temporal, etc.) e muitos deles só aparecem na presença da mãe.
Além disso, R. é “pequenininho” como diz mãe, bem menor em relação às outras crianças da sua idade, mas ela justifica afirmando também ser “pequenininha” e diz não se preocupar com isso, mas comenta que o pai de R. fica muito preocupado com o “tamanho” do filho. Para Rangel (2005, p.102):
Nessa concepção de corpo integralizado, entende-se que cada corpo expressa uma história individual, particular, construída e contada através de gestos, expressões, movimentos, perpassados por sentimentos, emoções, valores, crenças, advindos de aspectos sócio-culturais. É através dele que visitamos o mundo e o percebemos de maneira muito próxima.
Sendo assim, R. apenas corresponde à demanda que sua mãe lhe designa, em uma díade,  onde se estabelece o seguinte acordo: o crescimento do filho não reflete o desejo da mãe, para tanto, ele não aprende, não cresce e não desaponta essa mãe. Fica bom para todo mundo.
        
 
Com base na construção da hipótese diagnóstica, que se refere ao fato da mãe desejar que R. não cresça e este, ocupar esse “papel” de bebê, inclusive fisicamente (organicamente). Pode-se, perceber que apesar de R. estar alfabetizado, ele apresenta dificuldades de aprendizagem quanto ao fato de expandir seus conhecimentos e conseqüentemente expandir-se como sujeito. Pois, aprender e conhecer para R. pode representar entender seu papel na relação de seus pais, desapontar a sua mãe, reconhecer o seu desejo em contrapartida ao desejo da mãe. Esse revelar-se através do saber, pode significar sofrimento para R., que por isso se nega a mostrar o que sabe.
Tendo a hipótese diagnóstica estabelecida, elaboramos uma proposta de intervenção. Já que, segundo Escott (2004, p.34):
Ao psicopedagogo interessa levantar e investigar as dimensões cognitivas, afetivas, corporais e até mesmo pedagógicas, para, a partir de uma leitura dialética, intercruzando todos esses fatores, realizar a leitura global do sujeito que apresenta dificuldades na aprendizagem, organizando, dessa forma, competentemente, a intervenção psicopedagógica.
            Através das informações obtidas, observou-se uma dificuldade de aprendizagem sintoma, que tem por base a existência de um contrato de sobrevivência entre R. e sua mãe. A questão norteadora para a compreensão das dificuldades da lecto-escrita apresentadas por R., está diretamente vinculada ao desejo que a mãe possui de que ele não cresça. Portanto, R. tem todas as possibilidades de aprender, mas não pode mostrar o que sabe para não romper com o contrato de sobrevivência existente na família.
            A seguinte proposta tem por objetivo, favorecer a R. a afirmação da sua independência, da qual encontra-se privado. Promovendo a construção da sua autonomia e, conseqüentemente, liberando a sua capacidade de ação. Desvinculando-se desta relação de dependência que é mantida com a mãe. Pois, para Fernández (2001, p.91):
A autoria de pensamento é condição para a autonomia da pessoa e, por sua vez, a autonomia favorece a autoria de pensar. À medida que alguém se torna autor, poderá conseguir o mínimo de autonomia.
           
 
Com base na análise dos dados, a intervenção pensada, refere-se diretamente a propostas direcionadas ao grupo familiar. Uma vez que, o sintoma não está apenas no sujeito R., mas na estrutura de toda a família.
Para isso, sugerimos à família as seguintes ações:
  • Oportunizar através do lúdico, que R. desempenhe papéis (jogo simbólico) condizentes com a sua idade, e até, por vezes, papéis adultos. Favorecendo a aquisição da sua independência;
  • Estabelecer que R. tenha seu espaço determinado na sua casa, dormindo sozinho, cumprindo tarefas, participando das decisões e conversas familiares. Para que, desta maneira ele desenvolva responsabilidades, percebendo a sua importância e, conseqüentemente o seu lugar;
  • Autorizá-lo a realizar atividades que valorizem seu crescimento. Ex.: você pode ir e voltar sozinho da escola, pois você já é “grande” o bastante; você pode “dormir” sozinho, porque nada de mal lhe acontecerá; você pode acender o fogão, porque você vai cuidar; etc. Conversar sobre os medos e as questões que lhe afligem;
  • Possibilitar momentos de expressão da linguagem oral e escrita, contextualizados pelo desejo de R., por exemplo, jogos de videogame, que, por serem momentos de prazer, facilitariam que ele revelasse seus saberes.
Buscando, despertar o que sabiamente escreveu Freire (1983, p. 30) que:
Quando o homem compreende sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e com seu trabalho pode criar um mundo próprio: seu eu e suas circunstâncias. O homem enche de cultura os espaços geográficos e históricos. Cultura é tudo o que é criado pelo homem. Tanto uma poesia como uma frase de saudação. A cultura consiste em recriar e não em repetir. O homem pode fazê-lo porque tem uma consciência capaz de captar o mundo e transformá-lo.
Com base na entrevista e provas projetivas realizadas, chegamos a conclusão de que há um contrato de sobrevivência entre R. e sua mãe. Neste contrato R. deve manter-se no seu papel de bebezinho da mãe, que admite não desejar que seu filho cresça, sendo esta, ao nosso ver, a causa dos sintomas apresentados pela criança. Esta família também apresenta segredos, começando pela omissão da mãe sobre a gravidez, sendo que o pai foi informado por terceiros.
O fato de R. ter descoberto apenas aos 9 anos que seu irmão não é filho de seu pai também denota que o segredo é presente nesta família, pois esta informação lhe foi omitida por muitos anos, o que pode criar em seu imaginário a fantasia de que, já que o irmão não é filho deste pai, talvez ele também não o seja.
Em seu desenho R. faz um rosto e apaga, ficando a marca no papel, nos revelando a possibilidade de haver mais um segredo, que talvez ainda não tenha sido revelado.
Mesmo já estando alfabetizado, R. ainda apresenta dificuldades de lecto-escrita, onde quando escreve se esquece de letras no meio das palavras, e quando lê omite algumas letras, como o “r”. Em alguns momentos em seu caderno, que tivemos a oportunidade de ver, ele escreve algumas palavras pela metade, não fazendo isto no texto que produziu sobre a história que propomos.
Tendo observado o desenho da família realizado por R., concluímos que ele apresenta o desejo de se libertar do papel que lhe é imposto pela sua família, pois em seu desenho faz um quarto para ele e o irmão separado do quarto dos pais, onde a cama de seu irmão fica entre a sua cama e o quarto que desenhou para seus pais. No mesmo desenho observamos que R. se coloca distante do pai, e põe seu irmão entre ele e sua mãe. Isto contradiz a fala da mãe, que em dado momento da entrevista nos informa que muitas vezes quando ela o leva a escola é ele quem pega na sua mão para andar na rua. Acreditamos que para que ocorra o crescimento, e conseqüentemente a aprendizagem de uma forma saudável, se faz necessário libertar R. do engolfamento da mãe.
É maravilhoso o olhar que a Psicopedagogia tem sobre o sujeito, vendo-o com uma parte de um todo, compreendendo o papel que este ocupa no ambiente familiar, podendo assim ajudar não só a este, mas também todo o grupo familiar, como é o caso da família de R., onde a estrutura do casamento dos pais se apóia na vida dele, foi a gestação dele que uniu este casal, os mantendo juntos até hoje. Uma mudança no papel que R. ocupa significaria a desestruturação de todo este movimento familiar, mexendo não só com ele, mas com as posições tomadas por todos, principalmente a da mãe. 
Pois, conforme Nietzsche apud Alves (1994, p.92) “é preciso navegar. Deixando atrás as terras e os portos dos nossos pais e avós, nossos navios têm de buscar a terra dos nossos filhos e netos, ainda não vista, desconhecida”.
REFERÊNCIAS
ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. 6. ed. São Paulo, SP: Ars Poetica, 1994. 103 p.
BOSSA, Nadia A. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 2 ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. 131p.
______ Dificuldades de Aprendizagem: o que são? Como tratá-las? Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. 119p.
CAPOVILLA, Alessandra G. S. & ANDRADE, Márcia S. de. Linguagem escrita: aspectos semânticos e fonológicos. São Paulo: Memnon, 2002. 67p.
ESCOTT, Clarice M. Interfaces entre a Psicopedagogia Clínica e Institucional: um olhar e uma escuta na ação preventiva das dificuldades de aprendizagem. Novo Hamburgo: Feevale, 2004. 136p.
FERNANDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. 2ª reediçao Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. 261 p.
______Os idiomas do aprendente. Análise das modalidades ensinantes com famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre: Artmed, 2001. 223p.
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana; LICHTENSTEIN, Diana Myriam. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985. 284 p.
FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Tradução Moacir Gadotti e Lilian Lopes Martin. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. 79p.
JUNQUEIRA, Sônia. A Festa encrencada. 4. ed. São Paulo: Ática, 1994. 20 p.
PAÍN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 1985. 86 p.
RANGEL, Denise Inazacki. A história pessoal inscrita no “corpo” de cada um: uma aprendizagem constante. In: Psicopedagogia teoria e prática em discussão. Novo Hamburgo: Feevale, 2005. 240 p.
RIBEIRO, Mariane S. M. Uma leitura psicanalítica sobre as dificuldades de aprendizagem. In: Psicopedagogia teoria e prática em discussão. Novo Hamburgo: Feevale, 2005. 240 p.
WEISS, Maria Lúcia Lemme. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. 7. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. 189 p.
WOLFFENBÜTTEL, Patrícia. Psicopedagogia teoria e prática em discussão. Novo Hamburgo: Feevale, 2005. 240 p.

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