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segunda-feira, agosto 27, 2012

A Contribuição da Literatura no Processo de Ensino-Aprendizagem do Adolecente

A Contribuição da Literatura no Processo de Ensino-Aprendizagem do Adolecente PDF Imprimir E-mail
Escrito por Valdriano Evangelista dos Santos e José Olimpio dos Santos   
Qui, 08 de Dezembro de 2011 11:22
RESUMO
Este trabalho apresenta de forma científica e simplificada sob a ótica da psicopedagogia como a literatura pode contribuir no processo de ensino-aprendizagem do adolescente, para tal foram empregados teóricos que discorrem acerca da função da literatura no mundo, bem como, teóricos que discorrem acerca da avaliação psicopedagógica do adolescente. Visou também exemplificar com o poema Tecendo a manhã do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto que de forma prática as reflexões com o poema podem efetivamente auxiliá-lo nesse processo.
Palavras-chaves: ensino-aprendizagem, literatura, psicopedagogia, metalinguagem.

ABSTRACT
This paper presents a simple psychopedagogy from the perspective of how literature can contribute to the process of teaching and learning of adolescents, were used for such theorists that talk about the function of literature in the world, as well astheorists who expound on the psychopedagogical assessment adolescents. Also aimed to illustrate the poem Weaving themorning of brasileito poet João Cabral de Melo Neto that the reflections in a practical way with the poem can effectively assistyou with this process.
Keywords: teaching, literature, educational psychology, metalanguage.


1. A LITERATURA E A FORMAÇÃO INTELECTUAL HUMANA
Pensar em literatura é pensar no ser humano e no processo de formação intelectual em que este está inserido. Desse modo, somos levados a pensar essa literatura como algo indispensável para a constituição daquilo que intitulamos aqui como personalidade do ser humano, visto que muitas vezes um indivíduo se apóia no literário como um ponto de referência para a construção do seu conhecimento e colocação diante do mundo. Por isso que
nas nossas sociedades a literatura tem sido instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. (CANDIDO, 2004, p. 174)
Falar de formação intelectual a que o homem se remete por meio da literatura, podemos estabelecer relações com o pensamento clássico, pois nele a arte literária atua como uma espécie de alicerce para construção de seu ponto de vista mais elevado. Podemos dizer que a força de um povo, ou país, está ligada ao seu desenvolvimento literário. Assim, “Se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai” (POUND, 1995, p.36), logo, o que mantinha a força dessas sociedades era a sua literatura, pois a palavra tem o poder de transformar o mundo ajudando a construí-lo e/ou até mesmo destruí-lo.
Tanto na Grécia e como em Roma a arte literária foi importante para que essas nações firmassem marcas que perpetuassem o seu pensamento até os dias atuais. Dessa forma, podemos usar os romanos como exemplo já que,
souberam [...] manejar a pena. Inspirando-se nas letras gregas, mas imprimindo às suas obras um tom peculiar, um cunho de originalidade, criaram uma bela literatura que permaneceu viva e influente durante o correr dos séculos e constitui ainda hoje, uma das glórias do espírito humano. (GIORDANI, 1981, p. 223)
Nesta passagem, vemos que os romanos firmaram a sua literatura espelhando-se na literatura grega, pois a sua inspiração era proveniente desses moldes provando que a Grécia de certa forma se tornou um ponto de referência para a formação intelectual romana. Com a originalidade clássica isto não foi distinto, devido ao fato de que sempre uma nação se inspira em outra para que possa se lançar em experiências desse tipo.
Essas sociedades que por alto falamos são todas aquelas que posteriores aos gregos e aos romanos [usamos aqui como exemplos esses povos por que são eles que até os nossos tempos servem como marco da literatura no mundo ocidental] fizeram da mesma forma o uso da literatura para se posicionar diante do mundo e ainda denunciar algum aspecto da realidade humana. Citamos aqui a literatura brasileira que se inspirou nos diversos modelos literários anteriores a ela para se retirar moldes literários e, até mesmo criticar com intuito de formar a identidade intelectual do país.
Refletir acerca da questão do acesso à literatura, pois como se sabe é através dela que se forma a intelectualidade e que nem todos tiveram o acesso que seria ideal ou até mesmo não tiveram acesso. Este é um problema que faz com que muitas pessoas desde a antiguidade e até hoje se tornem de certa forma alienadas e/ou manipuladas com facilidade. É através da literatura que muitas vezes nos libertamos e/ou somos libertadores, pois ela atua como um meio de denúncia que é capaz de driblar os meios usados para reprimir a liberdade de expressão. Não tendo acesso a ela pode se dizer que o homem perde a capacidade de se manifestar e de tomar conhecimento de seus direitos enquanto cidadão.
Pode-se pensar então, nesse aspecto, com Antonio Candido (2004) que diz ser necessário “reconhecer que aquilo que é indispensável para nós é também indispensável para o próximo” (p.172), ou seja, nos é indispensável a literatura, por que podemos estabelecer uma relação com os direitos humanos que são de suma importância para toda humanidade. Assim concebe-se a literatura como parte dos bens incompreensíveis, ou seja, “os que não podem ser negados a ninguém” (p.173). Ao homem não pode ser negado, logo, lhe é indispensável: “a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não, à arte e à literatura” (p.175).
É necessário pensar na seguinte questão: o que todas essas reflexões tem a ver com o processo de ensino-aprendizagem do adolescente? Pode-se responder essa questão de forma simples, pois, na atualidade a quantidade de informações que um adolescente recebe é enorme, logo, precisamos ensiná-lo a selecionar aquilo que realmente tem conteúdo, torná-lo um ser capaz de selecionar o que realmente possa contribuir para a sua formação intelectual. Nessa direção, podemos dizer que a aprendizagem está “buscando com que a criança e o adolescente desenvolvam uma atitude seletiva e crítica” (OLIVERA; BOSSA, 2004, p.15) esse é o motivo pelo qual “aprender a selecionar e a criar tornam-se vitais na sociedade atual” (idem).
Além disso, pode-se afirmar que:
Os adolescentes precisam de certos contextos que funcionem como espaços de ‘decolagem’, que se tornem possível tanto uma paulatina inserção na sociedade, como na sistematização da aprendizagem. A instituição escolar pode e deve cumprir esse papel, sendo o espaço apropriado para receber uma variedade de estímulos, estabelecer a interação entre os pares e construir uma identidade grupal que permita, ao mesmo tempo, elaborar sua individualidade. (OLIVERA; BOSSA, 2004, p. 76)
Percebe-se que a literatura tem a sua função bem definida na sociedade, a função de ser instrumento que forneça conteúdo para um adolescente fazer reflexões e formar a sua opinião e se posicionar diante do mundo. Daí, somos levados a pensar que:
A literatura não existe num vácuo. Os escritores, como tais, têm sua função social definida, exatamente proporcional à sua competência como ESCRITORES. Essa é a sua principal utilidade [...] Os bons escritores são aqueles que mantém a linguagem eficiente. Quer dizer, que mantém a sua precisão, a sua clareza. (POUND, 1995, p.36).
Pode-se dizer que a necessidade de ter acesso à literatura se assemelha aos direitos que o homem tem a qualquer coisa que lhe é indispensável, assumindo assim a sua “função social” (Idem, p.36) como diz Pound. Esse é o fator que faz com que pensemos o adolescente em sua realidade, pois “há sempre, em toda aprendizagem, um sujeito presente e ativo, inserido em seu meio particular, que busca compreender alguma coisa, que também, de alguma forma, faz parte do seu meio” (p.16)
Com essa preocupação desembocamos numa “Literatura [que] é linguagem carregada de significado.” (POUND, 1995, p.32). E, que por meio dessa significação que traz em si, e os diversos temas que discute, é uma ferramenta eficaz para que o adolescente possa aprender. Mas quando dizemos aprender, nos perguntamos de forma mais objetiva: Aprender o quê? Bem, podemos dizer: tudo. Entretanto, isso não nos deixa explícito o que um adolescente pode aprender efetivamente.
A partir desse ponto, vamos utilizar como exemplo o poeta João Cabral de Melo Neto, para exemplificarmos como é que um adolescente pode aprender a se preocupar com a escrita, bem como da sua forma de olhar para o mundo, por meio da análise de um poema do autor.
Dentro obra de João Cabral, temos várias possibilidades de estudo, nesse temos iremos enfocar o que chamamos em sua obra de metalinguagem, recurso que o poeta utiliza para dar significado a sua obra. Para tal definição usaremos o conceito de Samira Chalhub (2002) uma vez que,
a função metalingüística, em síntese, centraliza-se no código: é código falando sobre código. Façamos um trabalho substitutivo, uma operação tradutora: é linguagem falando sobre linguagem, é música dizendo sobre música, é literatura sobre literatura, é palavra da palavra, é teatro fazendo teatro (p.32)
E ainda estendendo esse conceito ao mundo:
Afirmamos também que ambos, leitura e mundo, são linguagens. Estamos dizendo que uma operação de conhecimento sobre algo é, na relação eu-outro, uma tradução da linguagem, onde um termo A – que podemos considerar como emissão que organiza os signos referentes ao objeto, operando um conhecimento acerca desse mesmo objeto- descreve, explica, identifica, reproduz/produz, cria, reinventa, equaciona, equivale a um termo B:
A=B
O sinal de equação, sublinhe-se bem, significa uma relação de pertinência: quer dizer que a linguagem b, refere-se, em sua própria linguagem, à linguagem a. Ou, por outra, a linguagem-objeto (linguagem a) é falada pela linguagem b. Em termos gerais denominamos metalinguagem” (p.7)
A metalinguagem é, então, como está citado acima, o “código falando do código”. Na questão literária é discursar acerca da própria literatura, logo, o metapoema é o poema que vem discutir o próprio poema por que no momento que fala de si mesmo, nos faz pensar no ato da escrita.
Por meio dessa preocupação com a escrita o adolescente pode assimilar que ele também deve se preocupar na formulação da sua escrita, pois o ato de escrever não é algo que pode ser feito sem um determinado trabalho. Certo que, a escrita não deve ser apresenta ao adolescente como um monstro, mas sim como aquilo que deve ser trabalhada com cuidado, deve ser pensada, não simplesmente um amontoado de palavras.
Enfim, o processo de construção é uma ferramenta importante para que se possa pensar como as coisas são formadas, na literatura, bem como, na vida. O ato de reflexão de como as coisas são construídas, nos leva as mais diversas reflexões acerca dos objetos que analisamos e também da realidade.

2. COMO A LITERATURA DE JOÃO CABRAL PODE AJUDAR NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DO ADOLESCENTE?
Para buscarmos a resposta para a nossa questão, vamos supor que seja usado o poema “Tecendo a manhã” de João Cabral de Melo Neto, em uma atividade onde o adolescente será levado a pensar no processo de metalinguagem – metalinguagem é pensada aqui no âmbito do olhar para si, ou seja, qualquer coisa/pessoa preocupada com a sua própria construção- ele terá que pensar desde como o poema é construído, bem como, ampliar esse conhecimento acerca da sua realidade.
Vejamos o poema para que possamos entender melhor o que estamos falando:
Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece a manhã:
Ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
E o lance a outro; de um outro galo
Que apanhe o grito que um galo antes
E o lance a outro; e de outros galos
Que com muitos outros galos se cruzem
Os fios de um sol de seus gritos de galo,
Para que a manhã, desde uma teia tênue,
Se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
Se erguendo tenda, onde entrem todos,
Se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
Que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Nesse poema, podemos considerar que num primeiro contato, o adolescente pode se deter ao fato de a reflexão poética se dar em torno do amanhecer e o modo como os galos se comportam nesse instante o que é válido, pois, isso já irá ligá-lo à realidade. Entretanto, a partir daí ele pode ser levado a pensar da ligação do poema com a metalinguagem.
Como se pode fazer isto? Bem, o adolescente deve ser levado a pensar que o “galo” é apenas um animal, logo, esse galo pode ser interpretado como palavra/poema/poeta, onde a expressão “Um galo sozinho não tece a manhã”, simboliza mais que um simples amanhecer e “amanhecer” tem sentido mais amplo. Desse modo, o tecer a manhã irá além de e o galo poderão tomar sentidos amplificados, nos quais, o adolescente poderá sair de uma visão micro de leitura, para uma visão macro. Esta pensada como uma simples palavra, um poema, um poeta ou até mesmo situações cotidianas, aquela como um texto, um poeta, a literatura e até mesmo a vida que são resultados de pequenas coisas que se relacionam.
Nesse caminho, vemos que o poema se abre, ao adolescente, as mais diversas possibilidades de interpretação em torno da construção da literatura e/ou da vida. Visto que o diálogo existente entre os vários poetas e várias situações cotidianas são responsáveis por formar algo maior.
A partir dessa ótica, podemos conhecer melhor o adolescente com o qual estamos trabalhando, pois, uma vez que este é levado a pensar nas pequenas coisas, para a partir daí pensar em coisas maiores, ele está nos dando a possibilidade de abordá-lo de forma mais ampla, onde “não enfocando apenas aspectos intelectuais formais em condições abstratas, mas também procurar verificar se e como este adolescente está conseguindo se organizar formalmente em relação ao meio onde vive” (OLIVERA; BOSSA, 2004, p.17)
É pertinente as palavras de Oliveira e Bossa (2010) podemos dizer que a literatura poderá auxiliar o adolescente no processo contínuo de tomada de consciência “de compreensão em relação ao que se faz” (p.19). Processo este que “será construído pelo próprio sujeito, que cresce em abstração e reflexão, em relação a si e ao objeto, num movimento de descentralização” (idem). Logo, ao analisar o poema “Tecendo a manhã” o adolescente será levado a pensar justamente nessas relações do seu eu em relação aquilo que ele está analisando, mas, além disso, o movimento de descentralização dito pela autora o levará a pensar fora do texto, fora, também, do seu mundo particular, pois “essa descentralização supõe a possibilidade de se colocar no lugar do outro, de percebê-lo e respeitá-lo” (ibidem)
Percebe-se de forma clara, que o adolescente está na fase da vida em que sua identidade está sendo formada, logo, obviamente, ele buscará fazer isso ao seu modo, ou seja, ele se estruturará a sua imaginação, intuição, raciocínio à seu próprio jeito de ser e pensar. E, nesse contexto, o objeto literatura poderá entrar como instrumento de auxílio em uma avaliação cognitiva, pois através dele poderemos examinar os processos mentais formais e também ver como o adolescente faz uso deles em sua vida, e de que forma ele faz a combinação entre a memória, a criatividade, no campo da aprendizagem.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo em vista as reflexões teóricas de nosso texto, bem como, os objetos que por nós foram utilizados no intuito de trabalhar o modo que a literatura pode auxiliar na aprendizagem do adolescente, percebemos que não só é possível utilizador a literatura como um mecanismo de aprendizagem, mas também, que é uma ferramenta eficaz no ensino.
Ao embasarmo-nos em reflexões acerca da metalinguagem, que é uma pequena ferramenta de estilo que a literatura faz uso com o fim específico de aumentar a sua significação, podemos perceber que ela pode ser usada para que o adolescente perceba as relações de construção presentes em um texto. E, mais especificamente falando, podemos concluir que utilizando esse recurso, aliado com a poesia de João Cabral de Melo Neto, é possível fazer com o que o adolescente reflita sobre si mesmo, sobre o pensar em texto e, além disso, que a sua individualidade é uma parte importante na construção de algo maior.
A poesia de João Cabral, nessa direção, pode ser um recurso muito importante na construção da intelectualidade do adolescente, pois, ao trabalhar os sentidos da imagem do galo no poema Tecendo a manhã, ele poderá olhar para si, poderá olhar para o mundo e se posicionar diante dele de forma autônoma.
Em suma, pode-se dizer que a literatura contribui de forma concreta nas relações de ensino-aprendizagem e, por meio de suas mais diversas facetas pode de diversas formas ser instrumento na formação da intelectualidade do adolescente, ajudando no seu posicionamento diante do mundo, na sua forma de ver as coisas que o cercam, bem como, o sensibilizando para as mais diversificadas situações.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo/RJ: Duas Cidades/Ouro Sobre Azul, 2004.
CHALHUB, Samira. A Metalinguagem. 4 ed. São Paulo: Ática, 2002. (Série Princípios)
GIORDANI, Mário Curtis. Historia de Roma. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 1981.
POUND, Ezra. Abc da literatura. [Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes]. 7 ed. São Paulo: Cultrix, 1995.
SECCHIN, Antonio Carlos. Melhores poemas de João Cabral de Melo Neto. 9 ed. São Paulo: Global, 2003.
OLIVEIRA, Vera Barros de; BOSSA, Nadia Aparecida. Avaliação Psicopedagógica do Adolescente. 12 ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

Valdriano Evangelista dos Santos
Pós-Graduando em Psicopedagogia Clínica e Institucional pelo Instituo Matogrossense de Pós Graduação e Serviços Educacionais LTDA.
José Olimpio dos Santos
Orientador

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